Animais e natureza

O Amapá tem a maior taxa de acidentes por picada de cobra do Brasil em 2024, segundo o SINAN, mas é o Pará que soma o maior número absoluto de casos, com 5.042 notificações no ano

SINAN e IBGE mostram que o Amapá tem a maior taxa de picada de cobra do Brasil em 2024, mas é o Pará que soma mais casos, com 5.042 no ano.

O cruzamento dos números abertos do SINAN, do Ministério da Saúde, com a população de cada UF estimada pelo IBGE em 2024, último ano fechado do sistema, muda de resultado conforme o critério: por habitante, o Norte domina o ranking; em número de casos, Pará, Minas Gerais e Bahia aparecem à frente.

Bothrops atrox (jararaca-do-norte), cobra do grupo com a maior taxa de picada por estado no Brasil em 2024

Bothrops atrox (jararaca-do-norte): espécie de importância médica presente na Amazônia, região que concentra as maiores taxas de picada de cobra do Brasil em 2024. Foto: Bernard DUPONT/Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0).

O Amapá registrou, em 2024, a maior taxa de picada de cobra do Brasil: 62,15 casos por 100 mil habitantes, segundo o cruzamento entre as notificações abertas do SINAN e a população estimada pelo IBGE para o mesmo ano.

O resultado se inverte quando o critério passa a ser o número absoluto de casos. Com taxa um pouco menor, o Pará somou 5.042 notificações de acidente por picada de serpente em 2024, mais do que qualquer outro estado do país.

Direto ao ponto: o Amapá tem a maior taxa de picada de cobra do país em 2024 (62,15 por 100 mil habitantes), seguido por Roraima e Pará. Mas é o Pará que concentra o maior número absoluto de casos, com 5.042 notificações, quase 300 a mais que Minas Gerais, a segunda colocada nesse ranking.

A maior taxa de picada de cobra do Brasil é do Amapá

O Amapá fechou 2024 com 499 notificações de acidente por picada de serpente, registradas no Sinan. Dividido pelos 802.837 habitantes do estado, estimativa do IBGE para o mesmo ano, esse número resulta na taxa de 62,15 casos por 100 mil habitantes, a maior do país.

Roraima aparece logo atrás, com taxa de 61,52, seguido pelo Pará, com 58,19. Os três estados formam o topo do ranking de 2024, à frente de Acre (51,78) e Tocantins (45,84).

O Pará lidera em número de casos, mesmo com taxa menor que a do Amapá

Enquanto o Amapá vence no critério da taxa, é o Pará que concentra o maior número absoluto de acidentes por picada de cobra do país: 5.042 notificações em 2024, quase 1,5 mil a mais que Minas Gerais, a segunda colocada nesse ranking.

A população paraense, de 8.664.306 habitantes segundo o IBGE, ajuda a explicar a diferença: o Pará tem quase onze vezes mais gente que o Amapá, o que multiplica o número de encontros mesmo com uma taxa por habitante um pouco menor.

Gráfico de barras com as dez UFs de maior taxa de picada de cobra por 100 mil habitantes em 2024, liderado por Amapá, Roraima e Pará
As dez UFs com maior taxa de acidente por picada de cobra por 100 mil habitantes em 2024. Fonte: DataSUS/SINAN e IBGE. Crédito: Watts & Wild.

A Região Norte ocupa as seis primeiras posições do ranking de taxa

Depois de Amapá, Roraima e Pará, o restante do Norte também domina a lista: Acre (51,78), Tocantins (45,84) e Amazonas (43,77) completam as seis primeiras posições. Nenhum estado de outra região aparece antes de Rondônia, sétimo colocado, com taxa de 33,90.

Só a partir da oitava posição o ranking passa a incluir outra região: Mato Grosso, no Centro-Oeste, com taxa de 30,99 por 100 mil habitantes em 2024, a primeira fora do Norte.

Trabalhadores rurais e da pesca concentram a maior fatia dos acidentes por serpente

Um boletim do Ministério da Saúde sobre acidentes por animais peçonhentos (2010-2024) mostra que trabalhadores rurais e da pesca concentram a maior proporção dos acidentes por picada de serpente do país entre as ocupações registradas.

O grupo soma 26,8% dos casos, a maior fatia entre todos os tipos de acidente peçonhento. Esse padrão ajuda a explicar a concentração do Norte no topo do ranking, região de municípios pequenos e isolados, onde trabalho rural, pesca e deslocamento por trilha e rio aproximam moradores do habitat natural das serpentes.

Minas Gerais e Bahia lideram fora da Amazônia, mas ficam longe do topo da taxa

Minas Gerais soma 3.508 notificações em 2024, a segunda maior do país em número absoluto. Sua população de 21.322.691 habitantes, porém, empurra a taxa para 16,45 por 100 mil, uma posição intermediária no ranking nacional.

A Bahia repete o padrão: 3.246 casos, terceira colocada em número absoluto, com taxa de 21,86, também longe do topo. Os dois estados pesam no total nacional pela população grande, não por uma taxa alta.

Cascavel (Crotalus durissus) fotografada no Cerrado de Patrocínio, em Minas Gerais, um dos estados com mais casos de picada de cobra do Brasil
Cascavel (Crotalus durissus) fotografada no Cerrado de Patrocínio (MG), estado que teve a segunda maior soma de casos do país em 2024. Foto: Renato Augusto Martins/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

São Paulo tem uma das menores taxas do país, apesar do maior contingente populacional

Com 45.973.194 habitantes, o maior contingente do país, São Paulo registrou 2.227 notificações de picada de cobra em 2024. O resultado é uma taxa de 4,84 por 100 mil habitantes, uma das mais baixas do ranking nacional.

O Distrito Federal tem a menor taxa do país, 4,02, seguido de perto pelo Rio de Janeiro, com 4,57. Os três lugares mais urbanizados do Brasil também são os que menos registram esse tipo de acidente.

Identificar a cobra certa nem sempre é simples, mesmo para quem mora no campo

Nem toda serpente encontrada no Brasil é peçonhenta, e a confusão entre espécies é comum mesmo em áreas rurais. A diferença entre a coral-verdadeira e a falsa-coral, por exemplo, é sutil demais para servir de guia rápido diante de uma cobra de verdade, segundo o Instituto Butantan.

Casos como o de uma cobra de importância médica encontrada dentro de um tijolo em Santa Catarina mostram que o contato acontece até fora do ambiente silvestre, em situações do dia a dia.

Por que o acesso ao soro antiofídico pesa tanto quanto o número de picadas?

O mesmo boletim do Ministério da Saúde mostra que a Região Norte tem a maior taxa de mortalidade por acidente com animal peçonhento do país, 0,39 por 100 mil habitantes, quase três vezes a taxa nacional de 0,14. Roraima sozinho chega a 0,93, a maior taxa entre todas as UFs.

O soro antiofídico reduz bastante o risco de morte quando aplicado a tempo, segundo o Instituto Butantan, uma das instituições responsáveis pela produção nacional. Em áreas remotas do Norte, esse acesso rápido a um serviço de saúde equipado costuma ser mais difícil do que em capitais do Sudeste e do Sul.

Fachada do prédio histórico do Instituto Butantan, em São Paulo, responsável por parte da produção de soro antiofídico do Brasil
Instituto Butantan, em São Paulo: uma das instituições responsáveis pela produção do soro antiofídico usado no tratamento de picada de cobra no Brasil. Foto: Bruno Jamalaro/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

Lavar o local e procurar atendimento rápido é a orientação para qualquer picada

A orientação sanitária padrão para acidente com serpente é lavar o local com água e sabão e buscar atendimento médico o quanto antes, sem torniquete, sucção do veneno ou remédio caseiro, medidas que podem piorar o quadro do paciente.

Só o serviço de saúde decide, com base no tipo de acidente e na gravidade dos sintomas, se é preciso aplicar soro. Crianças e idosos têm maior risco de complicação e devem ser levados com prioridade ao atendimento.

A UF de notificação nem sempre é a UF onde a picada aconteceu

Os números contam os casos pela UF de notificação, o local do sistema de saúde onde o atendimento foi registrado, o que nem sempre coincide com a UF onde a picada de fato ocorreu. Moradores de regiões de fronteira entre estados podem ser atendidos do outro lado de onde moram.

Em todo o levantamento de acidentes por animal peçonhento entre 2010 e 2024, 2,1% dos registros nacionais ficam sem o tipo de animal identificado, segundo o mesmo boletim do Ministério da Saúde, uma margem de dado ausente que também afeta as notificações por serpente.

2025 e 2026 ainda aparecem como dados sujeitos a revisão no próprio SINAN

O TabNet do SINAN mostra que os números de 2023, 2024, 2025 e 2026 seguem classificados como "dados sujeitos à revisão", prática do próprio Ministério da Saúde para notificações recentes, que ainda podem ser corrigidas ou complementadas pelos estados.

Ainda assim, 2024 é o último ano fechado do calendário e serve de base mais estável para comparar estados. Você já teve algum susto com cobra por perto? Conte sua experiência nos comentários.

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