Animais e natureza

Incêndio destrói banco de plantas estudadas há 30 anos na Embrapa de Teresina, com mangaba, bacuri e cajá

Um banco de germoplasma não guarda dinheiro nem sementes numa geladeira. Muitas vezes são árvores vivas, plantadas em fileira, que levam anos para crescer e décadas para ser entendidas. Foi isso que o fogo atingiu na Embrapa Meio-Norte, em Teresina, entre segunda e quarta-feira desta semana.

Frutos amarelos de cajá empilhados, espécie conservada no banco de germoplasma da Embrapa Meio-Norte, em Teresina

Frutos de cajá, uma das espécies da coleção. Imagem de arquivo, sem ligação com a área queimada. Foto: CostaPPPR, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada.

O incêndio que atingiu a Embrapa em Teresina destruiu plantas nativas estudadas há 30 anos, segundo o chefe-geral da unidade, Anísio Ferreira Lima Neto. O fogo pegou um banco de germoplasma com espécies como mangaba, bacuri e cajá, de acordo com o g1 Piauí desta quarta-feira (7).

"Isso trouxe danos, não vou dizer irreparáveis, mas profundos danos à pesquisa agropecuária e a esse banco de germoplasma", disse Anísio à TV Clube. A causa do fogo não está confirmada.

Como o fogo avançou em três dias

O incêndio começou na noite de segunda-feira (5), foi controlado e voltou na terça (6), conforme o g1 Piauí. Na terça, a Embrapa falou em cerca de 8 hectares atingidos e disse que os experimentos da unidade não tinham sido afetados. Um dia depois, o balanço do chefe-geral já era outro: plantas de 30 anos de estudo destruídas.

Faltava água no ar e sobrava calor. Um mapeamento da Prefeitura de Teresina apontou perto de 44 °C e 15% de umidade na região na terça. Três carros do Corpo de Bombeiros, caminhões-pipa do Exército e a brigada da própria Embrapa trabalharam no combate, e na quarta de manhã as equipes ainda faziam o rescaldo.

O que é um banco de germoplasma

É uma coleção de material genético de plantas, mantida para conservação e usada em pesquisas e no desenvolvimento de novas variedades, define o g1. Em frutíferas nativas, esse material costuma ser uma árvore de verdade, com um nome de acesso e uma ficha.

Flor branca de mangaba em forma de estrela, sobre fundo desfocado de folhas verdes
Flor da mangaba, uma das espécies citadas pela reportagem. A imagem é de arquivo e não mostra a área queimada. Foto: Conrado, Wikimedia Commons, licença CC BY 3.0, recortada.

O caso do cajá mostra como é. O Banco Ativo de Germoplasma de Cajá da Embrapa Meio-Norte foi implantado em 2002 no Campo Experimental, na Avenida Duque de Caxias, em Teresina. Tem 38 acessos coletados em Altos, Demerval Lobão, Eliseu Martins, Itaueira, José de Freitas e Teresina, no Piauí, e em Timon, no Maranhão, segundo uma publicação da Embrapa sobre bancos genéticos. A conservação é feita em campo, com plantas vivas.

Por que perder plantas assim pesa mais que perder árvores

Cada acesso é uma árvore colhida num lugar, com características estudadas: porte, fruto, marcadores moleculares. A cajazeira chega a 20 ou 30 metros de altura, diz a mesma publicação, e o banco serve de matéria-prima para melhoramento. Uma planta que some leva junto a história dela.

Mão segurando frutos de cajá laranja-amarelados
Cajá na palma da mão. Imagem de arquivo, sem ligação com a área atingida. Foto: Jucilene Sacramento dos Santos, Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0, recortada.

A Embrapa trata o cajá do Piauí como parte de uma rede: são cinco bancos de Spondias, o gênero do cajá e do umbu, na Bahia, em Pernambuco, no Ceará, no Piauí e no Pará, com 210 acessos em 2019. Se algum desses bancos guarda cópia das plantas de Teresina, a Embrapa não disse. A mesma publicação cita ainda conservação on-farm, em área de produtor, que funciona como segunda via.

O g1 também registrou perdas fora das pesquisas. Pacas e camaleões morreram. As aves caipiras nativas e as cabras da Embrapa foram retiradas da área de risco e sobreviveram.

O que ainda não está confirmado

Anísio contou que houve quatro focos no mesmo ambiente, com intervalo de 10 a 15 minutos entre eles, e que isso sugere fogo intencional. Ele mesmo ressalvou: "Afirmar seria leviano de nossa parte". A suspeita será levada às autoridades, e a causa segue sem confirmação.

Também falta saber quantas plantas se perderam, de quais espécies e quais acessos. Esse balanço ainda não foi divulgado, e a lista de mangaba, bacuri e cajá vem da reportagem do g1, sem número por espécie.

Onde acompanhar

O balanço da perda e a apuração da causa devem sair da Embrapa Meio-Norte e das autoridades. O cenário de seca que ajuda o fogo a correr é tema de a matéria sobre os 40 graus em Teresina e de a sobre os avisos do Inmet com risco de fogo. Quem encontrar animal silvestre ferido pelo fogo pode seguir o caminho do Cetas do seu estado.

Fontes: g1 Piauí, 7 de outubro de 2026. g1 Piauí, 6 de outubro de 2026. Embrapa, publicação sobre bancos genéticos de cajá (2021).

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